Colônia libanesa da Saara lamenta tragédia na terra natal

Tradicional reduto de descendentes no Rio sofreu com explosão que deixou mais de 130 mortos. "Foi um baque grande", diz o comerciante Sérgio Obeid

Por Luana Dandara e Letícia Moura*

Proprietário da loja Sport Del Rey, inaugurada há 60 anos, Sérgio Obeid nasceu no Rio, mas o pai e a mãe são libaneses.
Proprietário da loja Sport Del Rey, inaugurada há 60 anos, Sérgio Obeid nasceu no Rio, mas o pai e a mãe são libaneses. -
Rio - Um dia após a explosão que devastou Beirute, na capital do Líbano, o clima no mercado popular da Saara era de tristeza e compaixão. Apesar da distância de mais de dez mil quilômetros, o polo, no Centro do Rio, abriga uma grande colônia de comerciantes libaneses, que herdaram lojas e restaurantes de seus pais e avós. Abalados com a tragédia, alguns contaram ao O DIA como receberam a forte notícia, tão longe de sua terra natal.
Proprietário da Brasil Roupas, Kamal Kaladun, de 77 anos, nasceu na região de Nehache, a cerca de 60 quilômetros de Beirute. Ainda impactado pela catástrofe, disse ter segurado as lágrimas ao falar pela primeira vez com a família, ao telefone, sobre o ocorrido.
"Estava trabalhando quando recebi do meu sobrinho, que também mora no Brasil, um primeiro vídeo. Inicialmente, eu achei até que era uma montagem, porque era assustador demais. Liguei logo para a minha família. A nossa aldeia tem mais de três mil pessoas e, mesmo distante quase 60 quilômetros, eles escutaram o estrondo. Ainda estavam todos chocados, com a voz trêmula, alguns chorando, sem saber de onde partiu aquilo. Pensaram em uma guerra ou um ato terrorista", contou Kaladun.
O empresário Kamal Kaladun viu as imagens do Líbano com tristeza. "Considero aqueles que se foram como irmãos" - Gilvan de Souza
Segundo o comerciante, é naquela região que ele se hospeda quando viaja ao Líbano, pelo menos uma vez ao ano. "É uma região histórica e muito bonita. É lamentável. Mesmo sem nenhum parente atingido, considero aqueles que se foram como meus irmãos libaneses. E, infelizmente, acredito que o número de mortos ainda está aquém da verdade", completou. 
Para Rabih Fadel, de 45 anos, dono de uma loja de roupas na Rua da Alfândega, a situação foi ainda mais dramática. Isso porque um de seus familiares havia passado pelo local da explosão apenas 30 minutos antes. "Muitas pessoas da minha família trabalham em Beirute e passam por lá várias vezes ao dia. Então, quando vi a notícia, me bateu um desespero. Pareceu cena de filme, me lembrou o que aconteceu em Hiroshima, no Japão", lamentou.
Fadel contou que um dos mortos na explosão era seu vizinho, quando ele ainda morava no Líbano, há 20 anos. "Sei que ele faleceu, mas as informações ainda estão chegando. Tenho cinco irmãos, 20 sobrinhos morando lá, e eles estão arrasados".
Um dos familiares de Rabih Fadel passou pelo local da explosão apenas 30 minutos antes - Gilvan de Souza / Agencia O Dia
O comerciante destacou ainda que a tragédia acontece em um momento extremamente difícil para o Líbano, o que agrava o episódio. "Há uma crise política e econômica forte no país, muitas pessoas já estão passando fome, a miséria está aumentando", afirmou Fadel.
Empresário lamenta atual momento que país atravessa
No escritório de Sérgio Obeid, de 48 anos, o que não faltam são lembranças de diferentes pontos turísticos do Líbano. Proprietário da loja Sport Del Rey, inaugurada há 60 anos, ele nasceu no Rio, mas o pai e a mãe são libaneses.
"Foi um baque grande, são cenas fortes que assisti a distância. A apreensão maior foi entender o que tinha acontecido. A guerra civil ainda é muito viva na nossa memória, mas tudo leva a crer que foi realmente um acidente", afirmou.
"Como lá está havendo um pequeno lockdown por conta do aumento da transmissão do coronavírus, imaginei que não tivesse nenhum parente próximo do local da explosão. E entrei em contato imediatamente com eles. Nesse sentido, a tecnologia facilita", acrescentou Obeid.
O empresário lembrou ainda o atual momento do país, com dificuldades econômica e política. "O Líbano já vem num aspecto emocional abalado antes mesmo da pandemia. É um país lindo, que passa por um período difícil de sua história", finalizou.
Brasil abriga mais libaneses que o Líbano
O historiador Rodrigo Ayupe, doutor em antropologia pela Universidade Federal Fluminense, explicou que a comunidade libanesa passou por quatro movimentos imigratórios para as Américas, incluindo Estados Unidos e Brasil. Segundo ele, não existem informações precisas sobre a quantidade de libaneses e descendentes que vivem em território brasileiro. "De acordo com a própria comunidade, os números variam entre três e dez milhões", esclareceu o especialista.
"No Líbano, a população está em seis milhões, são quase quatro milhões de libaneses e dois milhões de refugiados palestinos e sírios", pontuou Ayupe, que é autor do livro 'Primos em Minas', focado na imigração sírio libanesa para Minas Gerais.
Conforme o historiador, os libaneses começaram a chegar no território brasileiro em 1880, em busca de melhores condições de vida por conta da crise econômica. Ele explicou que o Líbano atual é composto de algumas das províncias que faziam parte do Império Otomano.
"Por conta da atuação do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, mais um grupo imigrou para o Brasil, entre 1913 e 1914. Depois, no pós-guerra, com a esperança frustrada de independência, muitos fugiram. Com a Guerra Civil no Líbano, entre 1975 e 1990, houve outro um processo imigratório para o Brasil", relembrou Ayupe.
*estagiária sob supervisão de Luiz Almeida

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Proprietário da loja Sport Del Rey, inaugurada há 60 anos, Sérgio Obeid nasceu no Rio, mas o pai e a mãe são libaneses. Gilvan de Souza
O empresário Kamal Kaladun viu as imagens com tristeza. "Considero aqueles que se foram como irmãos" Gilvan de Souza
Um dos familiares de Rabih Fadel passou pelo local da explosão apenas 30 minutos antes Gilvan de Souza / Agencia O Dia

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